terça-feira, 15 de abril de 2008

Ressuscitando mortos.

Eu sou da época em que ter diário era glorioso, fechado à cadeado e todo aquele mistério que cerca a vida não-adulta. O medo de que alguém pudesse ler seus pensamentos e segredos congelava a espinha, mesmo que fosse algo que hoje nós daríamos risada.

Depois o sabor doce da infância foi embora e sentimentos muitas vezes amargos começaram a fazer parte do meu dia-a-dia. Escrever era uma necessidade, e folhas encardidas de um caderno velho já serviam. Mesmo sem ter o glamour do diarinho, escrever era uma saída, um desabafo, uma amizade sem retorno.

Então chegou um tempo em que tudo se tornou virtual... até o diarinho. A lógica do diário, que era pra ser um escrito particular, passou a ser "in" se fosse publicado, ou seja, vai ser mais legal se todo mundo souber o que se passa na sua cabeça e na sua vida, mesmo que não tenha importância pra ninguém. A curiosidade, que antes era um pecado, se tornou uma qualidade, ou melhor, uma necessidade.

E eu não fiz diferente: escrevi e publiquei muita coisa que hoje eu volto a ler e me envergonho. Porque na época aquilo me feriu, ou me envergonhou, ou me fez dar risada, ou me enfureceu. É se ver num espelho nua e crua, sem nenhuma vergonha ou medo de parecer ridícula. Fiz amizades pelo país todo, conheci muita gente legal, outras me fizeram sofrer como nunca outra tinha feito... Enfim, construí uma vida com todos os percalços sem ter contato físico com ninguém.

Mas aí a realidade veio me cobrar por ter deixado ela de lado, porque eu pulei fundo e de cabeça, como uma criança presa que se vê liberta. Passei por cima dos meus princípios porque antes eu precisava só dizer, não tinha que lutar contra eles cara-a-cara. Mas ele veio, me encarou e eu peitei. E não me arrependo. Me envolvi como nunca, tive uma filha, passei por problemas dureza de pessoas adultas que eu nunca tinha tido. E me vi sem escrever. Algo que eu nunca tinha deixado de fazer por mais que eu estivesse ocupada.

Foi muito por achar que ninguém estivesse interessado em saber o que uma mãe inexperiente tem a dizer, por pensar que uma vida comum não tem seu charme, sei lá. Mas hoje eu senti falta porque eu senti o sol no rosto como há anos atrás, e não terá tanta graça de compartilhar minha realidade com as pessoas se eu não puder dizer isso àquelas que estão longe. Ou são somente curiosas.

A minha postura como blogueira mudou muito, porque eu mudei muito. Eu costumava ser leitora assídua de vários blogs que se foram também, mas acho que foi por chegar um momento na vida dos blogueiros em que a realidade fala mais alto. Só espero que eles tenham essa saudade que senti hoje.

Um comentário:

Lilhá disse...

Eu senti saudades daqui tbm. E vontade de saber da sua vida de mãe. ;~